
Foi com o sentimento de pertencimento e acolhimento que os discentes da Licenciatura em Música da UNEAD foram recepcionados durante a visita ao Quilombo do Massarandupió, no coração do município de Entre Rios. A visita teve objetivo pedagógico: dar aos discente da disciplina Práticas Musicais Coletivas II (PMC II) a oportunidade de conhecer as práticas musicais da comunidade quilombola.
A iniciativa foi pensada pelo professor da Licenciatura em Música Solon Santana Manica e teve como proposta aprofundar os conhecimentos trabalhados no componente de PMC II com uma vivência de campo. Os estudantes trabalharam perspectivas decoloniais da educação musical com ênfase na música indígena.
O prof. Solon explica que: “O componente PMC II trabalhou com os estudantes uma perspectiva de educação musical abrangente, que não se prende apenas aos cânones europeus ou a uma abordagem conservatorial de ensino da música. O foco foi valorizar diferentes matrizes culturais, com ênfase na cultura indígena, para promover uma formação de educadoras e educadores musicais que trabalhem de uma forma dialógica, consciente e inclusiva”, conclui.
A visita fez parte do conjunto de ações de ensino, pesquisa e extensão vinculadas ao lançamento do livro “Quem tem mandioca tem tudo: A planta do século XXI”, dos professores Eduardo Alfredo Morais Guimarães e Francisco Alfredo Morais Guimarães, que será lançado pela Eduneb, no dia 17/12/2025, das 16h às 20h, no Museu Geológico da Bahia. A participação dos estudantes de Música aconteceu a partir de um diálogo com o professor Eduardo Guimarães e se concretizou com a ida dos discentes da UNEAD à visita.
O discente Dilton Nascimento Filho, do Polo Conceição Coité, conta que a ida ao Quilombo pôde apresentar aos discentes o valor cultural e simbólico da música na comunidade quilombola.
“O objetivo da visita foi proporcionar aos estudantes a oportunidade de conhecer a música da comunidade, não apenas de uma forma estrutural, baseada na análise dos elementos musicais presentes nas canções, mas principalmente, o significado da música para a comunidade, tanto em seu cotidiano quanto em seus eventos solenes, como festas, reuniões religiosas ou de qualquer natureza, onde a música tenha um papel a ser desempenhado”, informa o discente.
Ancestralidade do futuro

Lílian Therezinha Degaut Santos de Souza, discente do Polo Salvador, lembra de cada detalhe da visita: dos templos religiosos dentro da comunidade representando o candomblé e as igrejas católicas e evangélicas à Casa de Farinha, local em que os membros fazem farinha de mandioca e outros produtos, que podem ser vendidos na feira mensal promovida pela comunidade.
A discente conta com riqueza de detalhes a surpresa em ver os produtos e ações da comunidade, das mais marcantes citadas por ela estão a produção artesanal de bolsas feitas pelas mulheres do quilombo, as plantações de diversas frutas e o apiário, onde o mel é produzido em pequena escala.
Lilian também explica um projeto do Quilombo que une a ancestralidade e a tecnologia: “O projeto deles é fazer uma estrutura fixa para comercializarem os produtos feitos dentro do quilombo. Eles estão pensando ainda em utilizar energia solar, isso foi impactante, ver a ideia da ancestralidade com o futuro, eles estão pensando em como fazer uma estrutura mais sólida com energia solar para abrigar a feira que eles já fazem e transformá-la em algo fixo”, conta a discente.
Religiosidade e Pertencimento

Se pudesse definir em uma palavra o sentimento que teve ao visitar o Quilombo do Massarandupió, Ruy Tito Ninck Carteado Filho definiria como “Pertencimento”. Discente da Licenciatura em Música da UNEAD, do Polo Barreiras, atualmente cristão evangélico, Ruy já foi praticante de religião de matriz africana e admirou a convivência de três templos religiosos diferentes dentro da comunidade.
“Hoje eu sou cristão evangélico, mas não demonizo orixás. Agora, a minha forma de chegar até Deus não é mais através de Exu, mas através de Jesus. Mas eu tenho um respeito imenso para as religiões de matriz africana e tenho um bom conhecimento. Algo marcante que vivi dentro do Quilombo foi visitar as duas igrejas, uma evangélica e uma católica. Isso para caracterizar que lá não existe preconceito. Deus é Deus. Inclusive eu orei um pouco na igreja evangélica e na católica, e antes disso tínhamos invocado Exu”, comenta.
Ruy, que é guitarrista, violinista e gosta de percussão, se integrou bem à comunidade. Para o discente, o quilombo, que é distante de grandes centros urbanos, mantém as tradições por causa desse distanciamento. “Essa proximidade com a cidade afasta as tradições religiosas. Eu já notei nas casas de Candomblé que tem essa urbanidade. Então, o fato de ser longe é melhor porque tem contato com a natureza. E a religião brasileira é a natureza”, conclui.
Bahia terra quilombola

De acordo com o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Bahia é o estado com o maior número de quilombolas do país, contando com 397.059 quilombolas. No mesmo censo a Bahia aparece como segundo estado do país com mais comunidades quilombolas, perdendo apenas para o Maranhão.
Comunidades como o Quilombo do Massarandupió mantém as tradições, a história e a cultura do povo baiano e do povo negro e indígenas nas comunidades próximas. Da confecção de bolsas e produtos alimentícios típicos até a demonstrações culturais e lançamentos de livros, a produção de conhecimento é um dos destaques que reafirmam a importância dos Quilombos e de sua população no estado da Bahia.
Os interessados em saber mais sobre o Quilombo do Massarandupió podem acessar a página no Instagram: https://www.instagram.com/quilombolademassarandupio/